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domingo, 1 de agosto de 2010

Símbolo do patrimônio histórico, faróis estão desaparecendo na França

Especialista em tesouros marítimos diz que desaparecimento é crime contra a civilização.
Owen Franken/New York Times/G1

Na fronteira mais longínqua da França, aonde a chuva chega horizontalmente do oceano, não há nada no horizonte exceto ondas e faróis, demarcando a linha entre a terra e o mar, o mar e o céu. Construídos como um auxílio técnico para marinheiros, cujos arquitetos geralmente não são conhecidos, os faróis da França vêm se tornando um símbolo do país, de seu “patrimoine”, ou patrimônio - uma palavra que lá carrega um sentido espiritual de patriotismo e nacionalismo.
Foi um francês, afinal, Augustin-Jean Fresnel, quem inventou uma lente transparente para faróis, e outro que pensou em colocar as lanternas em movimento em um tanque de mercúrio, que conduz eletricidade e se move com a terra.
No entanto, com os efeitos do tempo, do clima hostil e da automação, os faróis da França estão desaparecendo. Quase todos os guardadores de faróis se foram, incluindo todos aqueles responsáveis pela manutenção do interior dos faróis lá longe no oceano. Com a introdução de redes de satélite de posicionamento global, os faróis deixaram de ser cruciais para a vida dos marinheiros ou para os negócios do estado.
Mas os franceses ainda não confiam totalmente nos dispositivos de GPS americanos, sendo que a lei exige faróis e bóias luminosas. Não há nenhuma exigência para salvar os faróis mais belos – só é preciso que eles tenham uma luz forte e visível a até 58 km de distância no mar (clique para ler a continuação da reportagem).

Para Marc Pointud, especialista em tesouros marítimos, o desaparecimento dos faróis franceses é um crime contra a civilização. Ele fundou a Sociedade Nacional para o Patrimônio de Faróis e Sinalizações para salvá-los e, em artigo de capa de uma edição recente do “Chasse-marée”, ou Caça-maré, a bíblia náutica do país, ele disparou o alarme.
“Os faróis, especialmente aqueles no mar, alimentam o imaginário coletivo”, escreveu. “Eles trazem uma dimensão épica que pertence a grandes lendas e erguem um patrimônio em um todo único e inseparável.”
Pessoalmente, e diante de uma garrafa de cidra, Pointud é mais relaxado, mas ainda insistente. “Os faróis são o símbolo da presença do homem no oceano”, disse, “eles fazem as pessoas sonharem.”
Pointud reconhece que os esforços para salvar faróis longínquos no mar, como o Armen, o La Jument e o Kéréon, todos agora automatizados e sem guardadores, estão fadados ao fracasso. “É sempre uma questão de verba”, afirmou, acrescentando que o governo se importa mais com a manutenção da iluminação em detrimento das estruturas elegantes na qual reside a lâmpada. “Na maioria das vezes, para eles, faróis são como um sinal de trânsito, não uma parte do nosso patrimônio”.

Manutenção
Pointud tem algumas idéias para o turismo – cobrar mais para visitar os faróis e usar o dinheiro para reparos. Mas o Estado não está preparado para financiamentos desse tipo e o Ministério da Cultura, sobrecarregado por ter que manter “le patrimoine”, se concentra em construções mais grandiosas, mais antigas e em terra firme.

A França ainda tem um Departamento de Faróis e Sinalizações em seu Ministério da Infra-estrutura e há cerca de 150 faróis que merecem destaque nesse país marítimo, sem costa apenas em sua fronteira oriental.
Philippe Genty, líder do departamento nessa parte da Bretanha, chamada de Finistère – o fim do mundo – está dando o melhor de si para salvar o famoso farol de Eckmühl, construído nos anos 1890 com uma herança da filha de um dos marechais de Napoleão, para compensar, segundo ela, todo o sangue derramado por seu pai.
A construção é bela: uma torre de granito 55 metros acima do nível do mar, com uma escadaria curvada de 272 degraus, ladrilhada com opalino azul-turquesa pálido, levando a uma sala com painéis de madeira, uma estátua do marechal e um teto de mármore com ornamentos metálicos. Agora, muitas das escadarias em opalino, que já não se produz mais, estão rachadas ou quebradas, o ferro está oxidando e os painéis e o teto foram desmontados para substituir as vigas em processo de apodrecimento. O marechal está guardado em um depósito.
“Vemos os faróis como algo técnico, mas eles também são belos”, disse Genty. “Queremos manter nosso patrimônio, nossa herança.”
Após pressionar seu departamento e tentar trabalhar com o Ministério da Cultura, Genty dispõe de US$ 239 mil para começar a vedar o granito e substituir as vigas podres e o ferro enferrujado.
“Isso é suficiente para mantê-lo funcionando, para que não se desmorone”, ele disse. “Mas em 50 anos, se os faróis não forem restaurados, eles vão todos se despedaçar no oceano.”
Genty está trabalhando com Pierre Alexandre do escritório de Finistère do Ministério da Cultura. Alexandre observa que os faróis da região, devido ao seu valor histórico e de navegação, são os mais importantes da França. Ele está providenciando recursos para avaliações técnicas dos cinco faróis aqui classificados como monumentos históricos, incluindo o mais antigo, Le Stiff. “No momento, não podemos pensar em investir em faróis em alto mar”, afirmou Alexandre. “É impraticável.”
O Le Stiff, de 32 m de altura, tem orientado marinheiros desde 1699. Naquela época, grandes fogueiras eram produzidas com carvão mineral em seu topo; hoje, sua vidraça rosada é iluminada por uma grande lâmpada incandescente, controlada por computadores em terra, e muitas das salas estão interditadas porque o chão e as vigas estão apodrecendo.
O farol Creac’h, na parte ocidental da ilha, é muito maior, 55 m, mas também sofre sérios estragos estruturais. Sua maravilhosa escadaria está fechada para turistas porque o corrimão é muito baixo e o risco de acidentes é alto.
O Kéréon, construído no mar, é venerado pela sua forma elegante, painéis de madeira de carvalho e a sofisticada marchetaria de seu interior, com uma enorme estrela central – o símbolo dos faróis da França – trabalhada em madeira de ébano e mogno no assoalho. Conhecido como “Palácio dos Mares”, o Kéréon tem camas construídas dentro dos painéis de madeira das paredes e os dois guardadores do farol costumavam caminhar com chinelos de feltro para polir os pisos.

Guardadores
Mas hoje o Kéréon está vazio, sendo visitado somente por especialistas técnicos em longos intervalos. Seu interior, muitos afirmam, está se desintegrando com os estragos da umidade e da água.
Jean-Yves Berthelé, de 52 anos, foi um dos últimos guardadores do Kéréon, trabalhando em turno que incluía duas semanas no farol, uma em casa, uma no farol e uma em casa. Era bonito, como ele disse, “mas também muito repetitivo”. Os dois guardadores tinham que encontrar um jeito de quebrar a rotina de lavar as lentes e as janelas e cuidar da manutenção dos equipamentos. Além de conviverem um com o outro, ele disse. A televisão só chegou ao Kéréon no final dos anos 1980, “então, nós cozinhávamos toda hora”, disse Berthelé. “Como nós franceses dizemos, a força moral vem do prato.”


Os guardadores de farol eram famosos por suas bebedeiras e os arquivos examinados por Jean-Cristophe Fichou, acadêmico local, estão repletos de histórias de crime e violência.
Fichou, professor na cidade de Brest, escreveu sua dissertação de doutorado sobre os faróis da França e publicou três livros conceituados sobre o tema. Como Pointud, ele ama os faróis, mas também afirma que Pointud é muito dramático com relação a eles e que “fala um pouco alto demais.”
“A questão é o que temos condições de salvar”, disse Fichou. “É muito caro e nós nunca poderemos salvar aqueles faróis em alto mar. Nem podemos levar os turistas até lá – é caro e perigoso demais”. Construí-los foi um grande desafio para a engenharia, e os engenheiros tentaram fazê-lo de forma elegante, disse, “mas foi naquela época, agora acabou.” Pelo fato de os faróis estarem se deteriorando, “é claro que nosso interesse se desperta”, disse Fichou. “Mas também há certa beleza no fato de que algo está em decadência.”
Berthelé, o antigo guardador do Kéréon, ainda trabalha para o Departamento de Faróis e Sinalizações em Île d'Ouessant, uma ilha sem árvores, em forma de ovelha, visitada por até mil turistas por dia na temporada de verão. Como os outros antigos guardadores, ele senta em uma cadeira no escritório e observa computadores e relatórios meteorológicos.
Perguntado se, depois de passar uma época no farol, ele estava frustrado com a vida comum em uma casa mais normal, ele pensou por um instante. Então, simplesmente disse, com uma grande paixão repentina: “eu odeio cortinas.”
Fotos: Internet
 Veja apresentação power point com imagens dos faróis franceses
(Clique em "Apresentação de Slides" no canto inferior direito da tela com a apresentação para iniciá-la) "Les sentinelles del'Iroise" foi enviada por gentileza de Celso Chagas Ribeiro.

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